Quarta-feira, 01 de Agosto de 2012

Sentada, com a senha na mão, aguardo.

O número é alto, a sala é ampla, abafada, e está repleta.

E ninguém brinca, ou atrevo-me: sequer sorri.

Como eu, centenas vêm fazer hoje a sua inscrição neste Centro de Emprego.

Todos acusam na expressão a dificuldade e o peso da circunstância.

Mesmo tendo por mais ou menos certo que o meu caso não é dos que têm piores perspectivas (Setembro corre novo concurso), pois partilho com estas pessoas o estigma da sala e da condição...

Olhando em volta, livro pousado, medito.

Inacreditavelmente, ocorrem-me que, talvez ainda ninguém ali se deu conta que, afinal, até temos alguma sorte.

Sorte?! Sim, sorte.

Sorte por vivermos neste país, apesar de tudo, civilizado e, à falta de outras qualidades, solidário.

Sorte de que, antes de mim (de nós), muitos terem tido a coragem de ter lutado, de não terem desistido mesmo quando pareceu difícil (impossível?).

E agradeci a todos eles.

Especialmente a todos os que há anos ajudaram a fundar e a construir o nosso Estado Social. E depois, a todos aqueles que, a custos que a nossa passividade actual parece não entender, e incluíram a tortura e a prisão, lutaram, às vezes muito sós, pela melhoria e segurança das nossas condições de trabalho.

Por eles tenho férias, direitos, alguma segurança laboral e subsídio de desemprego que não me deixa desamparada em momentos como este.

E exactamente por reconhecer o valor desta herança que tento estar à altura da passagem do testemunho - E Luto.

E não desisto: protesto, escrevo, faço greves e manifestações, participo de forma construtiva na vida do meu país.

"É pouco", dirão alguns, "eles é que mandam" - dirão outros...

A todos respondo que só consigo fazer a minha parte e espero o mesmo de todos.

Estes senhores que nos governam não tomaram o poder, foram eleitos e, portanto, colocados a governar por nós.

E a situação é sempre, sempre, a prazo.

O certo é que não me derrotaram, e sei a responsabilidade que está sobre a minha geração: Lutar para o legado que fica não seja muito inferior ao que recebi.

É possível. Países com menos recursos o fazem todos os dias e conseguem, com alguns ajustes, viver com alguma qualidade.

As gerações futuras contam connosco, tal como nós contámos com a anterior.

Não fujo às minhas responsabilidades.

 

Este é o nosso turno.

 



publicado por Marta M às 18:18
Boa noite.
Agradeço as suas palavras, no entanto a comparação com os tempos do anti-semitismo é um bocadinho excessiva, convenhamos...
Os tempos não são fáceis para ninguém, tem razão. Os professores de há 5 anos para cá têm sido o "bombo" da festa e, muito francamente, estamos com a paciência esgotada.
Um abraço grato pela visita
Marta M
Marta M a 6 de Setembro de 2012 às 22:29

Desculpe Marta pela imagem excessiva do anti-semitismo, eu não sou docente, mas embora muito chocante poderá reconhecer com facilidade alguns dos mesmos princípios fundamentais semelhantes, dos quais realço os seguintes:

1- Uma resolução colectiva massiva de uma população(profissional) que se tem apresentado como um sucessivo problema para a classe governativa.

2- Uma acção de "vingança punitiva" sob um argumento oportunista, o da crise, para abalar e descaracterizar essa população.

3- A mesma insensibilidade humana, com as consequências pessoais e familiares de dezenas de milhares desses profissionais e suas famílias que são enviadas para um gueto sem saída, o desemprego, ou a emigração(deportação).

4- O estabelecimento de uma dominação autoritária que manipulará facilmente todos os que são autorizados a permanecer activos na profissão.

5- A manutenção de uma lembrança permanente de tal domínio e autoridade pela ameaça que representa os milhares que ficam em horário zero, que na prática significará que ficam isolados da actividade e da não actividade, pois continuam como professores, mas impedidos de actuar.

6- O impiedoso ataque à condição humana de uma população(profissional), bem formada, muito capaz e útil, formada pelo sistema de ensino português, que vê assim desreconhecidos os seus direitos a uma vida digna e condizente com o estatuto de importância social que lhe está associada por direito próprio.

Veja Marta se não serão estes fundamentos semelhantes aos outros, que provêm da mesma fonte de onde provem toda a maldade, mas agora com outro "vestuário", outro ambiente, mas a obra é a mesma.

O meu único objectivo é o discernimento. Acredito que à medida que nos é dado discernir melhor, ou compreender, menos possibilidades permanecem de nos poderem enganar.

Imagine uma licenciatura com somente 3 disciplinas feitas sem frequência, ou um projecto de entrega a privados de um património imensurável da RTP, ou "arrumar" com a vida de dezenas de milhares de professores...
Tudo nos mostra a mesma ofensa aos valores e são senso comum que a ninguém passaria pela cabeça colocar em causa e que também não é gestão inovadora, porque já aconteceu no passado. Tudo o que é bom é atropelado, para estabelecer algo que progressivamente se mostra em toda a sua desumanidade. A nossa sorte e confusão é que aqui e ali algumas coisas também acontecem de bem, são poucas, porque se assim não fosse veríamos com toda a clareza a pobreza a que deliberada e inconscientemente nos estão a votar.

A pergunta mais difícil para um e todos os desempregados hoje é...Como vou eu sair desta...

Um abraço!

Vejo o mundo, somo o que me acontece, vejo os outros, as minhas circunstâncias....Escolho caminhos e vou tentando ver o "lugar" dos outros
Afinal quem penso que sou..
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Aviso:
As imagens que ilustram alguns posts resultam de pesquisas no google, se existir algum direito sobre elas, por favor,faça-me saber. Obrigada.
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