Domingo, 18 de Outubro de 2009

"Quero lá saber! "

 

" Se a setora for simpática comigo inda vá lá...Senão isto vai ser muuuito complicado.."

 

O tom foi seco, o olhar directo e a mensagem não suscitou dúvidas.

 Esta foi a forma ameaçadora como, no início das aulas, um aluno de 16 anos (8ºAno) se apresentou à turma, mas principalmente a mim, sua professora.  O aluno em questão é muito mais velho que os restantes e mais alto que eu quase um palmo, o seu historial refere uma família seriamente disfuncional, retenções sucessivas recheadas de processos disciplinares e um percurso do pior que tenho encontrado na minha prática lectiva...

Ali estava ele, olhos duros e pouco transparentes, ocupando uma carteira numa aula minha e, portanto, a merecer de direito (goste eu ou não) a minha atenção.

Respirei fundo, procurei olhá-lo nos olhos da forma mais neutra e tranquila que consegui (tinha todos à espera da minha reacção) e respondi:

- "Porque inicias o ano com esse tom? Vou tratar-te como mereceres, por isso a forma como o ano vai decorrer dependerá mais de ti do que de mim. Por mim, serei justa contigo".

E passei ao aluno seguinte, desvalorizando ultimato que me havia sido endereçado.

Não foi fácil.

Confesso que o seu olhar é duro e impenetrável, quase assustador se não se tratasse apenas de um jovem. O primeiro que me ocorreu foi que havia ali muita negligência parental e possivelmente maus tratos (sim, ele aprendera aquele olhar cruel em algum lugar lá atrás...).

Não o acolhi tão prontamente como habitual e, humanamente me confesso, teria gostado que ele ali não estivesse e que "alguém" assumisse essa responsabilidade longe das minhas aulas...Pois, foi o que senti.

Toda a viagem de volta para casa foi a pensar nesse jovem rebelde e ameaçador e na melhor forma de o abordar e controlar, por forma a conseguir dar as aulas num ambiente de trabalho. Inicialmente tive pena dos outros alunos da turma, certamente intimidados por esse colega quase adulto, agressivo e, note-se, já com as hormonas em ebulição. Também tive pena de mim, como não? Sete turmas, 100Km diários e agora este rapaz....

Depois como invariavelmente me acontece, assumo as minhas responsabilidades: É meu aluno! Tenho que encontrar forma de lhe ensinar algo, ainda que não sejam todos os conteúdos da disciplina...

É o que tenho feito há quase 2 meses, perco os 10 minutos iniciais de cada aula a conseguir que o C. se sente,  abra o caderno e esteja em silêncio, depois faço-o participar da aula quer pedindo que faça uma leitura em voz alta, quer endereçando-lhe perguntas que sei estarem ao seu alcance.Lembro-lhe imensas vezes que é o mais velho e que deve dar o exemplo. Contrariamente ao previsto - a maior parte das vezes corre bem.

Esta semana, por algum milagre, o C. esteve atento, concentrado e respondeu correctamente a uma questão simples. Elogiei-o com gosto e, perante a conversação excessiva de outros, lembrei, olhando-o directamente que: -"Alguns têm a fama de desestabilizadores e outros é que fazem barulho!".

Ele percebeu. No fim da aula, enquanto arrumava os meus livros, apagou voluntariamente o quadro antes de sair.

O caminho não é fácil, mas acho que chegarei lá. O C. precisa que acreditem nele e lhe mostrem outros caminhos para além dos que ele pensa que existem.

Se não formos nós na escola, quem?

 

 



publicado por Marta M às 20:59
Olá Marta
Como eu gostava de poder espantar-me com o caso desse aluno que tens na tua sala!
Infelizmente vai sendo comum esse tipo de comportamento.
O que nem sempre é usual é a força e a determinação com que partes para transformar a atitude e postura perante a vida desse teu aluno.
Criar expectativas positivas, acreditar, elogiar... são estratégias que certamente porás em prática para teres de volta alguém que está prestes a desistir e a enveredar por caminhos tortuosos.
Tenho a certeza que conseguirás operar um milagre, porque a tua confiança e força já o fazem adivinhar.
Uma boa semana para ti.
Beijos
Manu

Existe um Olhar a 19 de Outubro de 2009 às 07:52

Manu :
Começo por pedir desculpas por ter demorado tanto tempo a responder aos coments , não é por falta de vontade, acredita-me. Aproxima-se a época de testes e já tenho 50 à minha frente...E faltam mais 4 turmas...
Quanto à vontade de ir "ajeitando" este mundo através da juventude, parece-me mesmo o caminho com maiores chances!
Mais se desistirmos de "consertar" o mundo que restará aos vindouros? Alguém já o fez por nós antes e agora é a nossa vez...
Sei que me entendes !
Abraço grande
Marta M a 20 de Outubro de 2009 às 20:01

Olá, Marta!
Quer crer que me comoveu com este seu testemunho?!
Há uma frase que nos diz o seguinte: «Não existem rapazes maus, os homens é que os tornam...»
Que Deus a ilumine e continue a dar forças...!
Um abraço de muito boa semana!
Marcolino
Marcolino a 19 de Outubro de 2009 às 09:09

Marcolino:
Realmente existem rapazes que foram muito negligenciados e maltratados e que só conhecem uma forma torta de lidar com o mundo e com os outros...Mostrar alternativas é obrigação de todos os que já têm o privilégio de as conhecer.
Desde o paleolítico que as comunidades humanas tomam conta e educam os mais jovens.
Desistir disso é "parar" o mundo.
Claro que há jovens mais difíceis que outros.
Mas, neste caso, não tenho escolha e tenho que continuar - aliás DEVO!
Abraço e desculpe a demora na resposta
Marta M a 20 de Outubro de 2009 às 20:06

Marta
O caminho não é fácil, mas é esse sem dúvida. É impressionante como as pessoas se modificam quando lhes dedicamos a nossa atenção, quando gostamos delas. E a atitude do C. nesse final de aula deve ter-te dado algum oxigénio para os grandes mergulhos que ainda tens de dar no oceano da sua mudança. Bem precisas porque pelo que contas tens um ano pleno de desafios. Bem-hajas amiga!
descobrirafelicidade a 19 de Outubro de 2009 às 11:09

Teresa:
Sei que me entendes e acredito que já fizeste o mesmo inúmeras vezes...Não o faz a maioria dos nosso colegas?
Eu apenas dei voz à prática docente de tantos pelo país fora...
Claro que temos dúvidas, claro que queremos "passar a bola", mas depois percebemos que somos os últimos da fila e depois de nós não está mais ninguém...
Conscientes, assumimos e vamos em frente , o melhor que sabemos e podemos.
Abraço grande e muito obrigada pelos mails inspiradores que me tens enviado e que já me fizeram tão bem. :)
Se mais notícias não dou é por falta de tempo, nunca por esquecimento.
Marta M a 20 de Outubro de 2009 às 20:13

Eu penso que os jovens dessa idade aprendem com os exemplos que vêem à sua volta. Acho que estás no caminho certo para lhe dar o exemplo de como se deve fazer as coisas e isso é que é importante. Pode não se ver resultados no seu modo de ser a curto prazo, mas tenho a certeza que a longo prazo ele vai-se lembrar da professora que não desistiu dele. :)
cuidandodemim a 19 de Outubro de 2009 às 12:15

Olá!
Sim, eu sei que os alunos nos levam no coração mesmo que nunca mais estejam connosco. Essa certeza me inspira e não me deixa desistir.
Acredito que o mesmo se passa contigo e com todos aqueles que te passam pelas mãos.
Abraço e espero que a chuva amaine por aí... ;)

Nota: Já vi o episódio de Anantomia de Grey que tão bem descreveste no teu blog. Emocionei-me tanto com a situação do George e com a narração de meredith....Tens razão.
Marta M a 20 de Outubro de 2009 às 20:17

Olá,

Gostei muito da sua forma de lidar com o seu aluno. Por vezes realmente é muito difícil lidar com situações desse tipo. Sei muito bem como é isso, pois trabalho em uma escola e confesso que aqui os problemas também são conflitantes. Espero que tenha sorte com ele e com o tempo verá que tudo será encaminhado para o melhor caminho.

Abraços,
Monica Lima
Monica Lima a 19 de Outubro de 2009 às 14:38

Mónica:
Olá e seja bem vinda a esta "tribo".
Obrigada pelo seu testemunho e por me fazer sentir acompanhada por perceber que estes "problemas" (?) existem em todas as escolas do mundo e que há que enfrentá-los da melhor maneira que sabemos.
Qual é a sua cidade no Brasil?
Abraço europeu!
Marta M a 20 de Outubro de 2009 às 20:20

Marta,
Não sei se teria a tua capacidade...mas percebo muito bem que esse é o caminho certo!
Como diz a Teresa e muito bem, precisas de muito oxigénio...
Nada que os teus "pranayama" não resolvam!
Abraço!
Nucha
Nucha a 20 de Outubro de 2009 às 10:56

Nucha :

Já usas o vocabulário específico do yoga! Percebo que já descobriste os enormes benefícios desta prática (quase viciante para mim!).
Tens absoluta razão, porque aprender a respirar em profundidade permite "energizar" o nosso organismo, recuperar o fôlego e até expandir a memória...Os benefícios são tão evidentes (e rápidos) que quando comecei esta prática, adormecia antes das 22h, coisa impensável antes!
Se me tem ajudado? Imenso!!!
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Nucha : <BR><img src="http://blogs.sapo.pt/images/mood/EMOTICON_DEFAULT.png"> <BR>Já usas o vocabulário específico do yoga! Percebo que já descobriste os enormes benefícios desta prática (quase viciante para mim!). <BR>Tens absoluta razão, porque aprender a respirar em profundidade permite "energizar" o nosso organismo, recuperar o fôlego e até expandir a memória...Os benefícios são tão evidentes (e rápidos) que quando comecei esta prática, adormecia antes das 22h, coisa impensável antes! <BR>Se me tem ajudado? Imenso!!! <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Quanto</A> a teres capacidade para este trabalho com o C,, como não? Cuidas - bem - de grupos maiores e cabem todos no teu coração ;) <BR>Abraço grande
Marta M a 20 de Outubro de 2009 às 20:29

Marta,
A Inês pratica Yoga há seis anos...ela desde sempre me explica os "asanas",os mantras e vocalizações etc etc além de eu própria já ter passeado várias vezes por lá...Tenho que dizer que o prof. é espectacular e as aulas têm sido muito intensas. Estou muito satisfeita.
Calcula que esta associação que frequentamos existe em Coimbra... Chintamani!!!
Abraço grande!
Nucha
Nucha a 20 de Outubro de 2009 às 21:37

Dear teacher

Ao contrário do que eu e os colegas cantámos - a brincar - ao recém-chegado professor de Inglès, lá para bem pra trás em 1980, "Hey, teacher...,

DON'T LEAVE YOUR KIDS ALONE"

Acho que no fundo todos queremos ser muito amados e aconchegados.
Revejo cenas do filme da Michelle Pfeiffer do qual não me recordo o nome e sei que não está a viver um filme mas dou-lhe os meus sinceros parabéns pela forma como contornou a situação.
Não é fácil ser professora hoje em dia depois de termos vivido com as regras dos anos 70/80 durante os quais era sacrilégio faltar ao respeito a uma professora.Não ousávamos, pura e simplesmente independentemente d tudo o resto.
Gabo-lhe o sangue frio e a ternura.
E reafirmo o pedido:

Hey, teacher
Don't you leave your kids alone!"

Bj de uma recém chegada ao blog "por culpa" da Nucha e das bloguistas da Laurinda Alves que felizmente me trouxeram até aqui. :) :)
Cristina
Cristina a 21 de Outubro de 2009 às 04:35

Cristina:
Bem vinda sejas!
E se vens pela mãos das minhas novas amigas bloguistas " vens altamente recomendada e vibras, certamente, na mesma dimensão desta tribo
Quanto a ser professora hoje em dia, pois, tens tanta razão que nem sei como reforçar essa conclusão ! O desgaste emocional hoje é absolutamente esgotante para quem leva a sério a profissão como eu.
Obrigada por lembrares essa música dos meus saudosos Pink Floyd e o filme emocionante da Michelle o "Mentes Perigosas" - já me serviu de inspiração em dias mais cinzentos!
Aparece sempre que te apetecer.
Abraço de boas vindas!
Marta M a 21 de Outubro de 2009 às 20:57

Cristina??????Alô????
Não te trazemos por bons caminhos?
Fico feliz por teres aqui vindo parar...sintonia, amiga!
Ainda vais ter a outro lado e vais gostar...de descobrir a felicidade!!!!!!
Sei que está a chover e que te encolhes nessa carapaça por causa do tempo...já tinhas dito, ok, mas quero ir sabendo de ti...que estás bem, que te fazemos companhia e que te puxamos as orelhas quando for preciso...sim porque também precisas!!!!
Teresa, desculpa a invasão da tua sala mas esta miúda precisava de ouvir este "raspanete"...ehehehhe
Abraços às duas!
Nucha
Nucha a 21 de Outubro de 2009 às 21:23

Nucha :
Usa a sala à tua vontade. Adorei o diálogo!
Mas eu não sou a Teresa, esta é a sala da Marta
Obrigada por me trazeres novas amigas
Marta M a 21 de Outubro de 2009 às 22:31

Marta,
Mil desculpas...VOCÊS BARALHAM-ME!!!!
Tu percebeste...
Beijinhos.
Nucha
Nucha a 22 de Outubro de 2009 às 09:17

Olá Marta,

Sou do Rio mais vivo em uma cidade do interior de São Paulo. Não sou professora mas trabalho na parte administrativa de uma grande escola. Na qual os alunos valorizam mais o Ter do que o Ser, por aí veja as situações conflitantes e sociais que temos que enfretar. Enfim faz parte da vida .....

Um grande abraço,

Monica Lima
Monica Lima a 21 de Outubro de 2009 às 14:05

Mônica :
Olá!
Já mudei o acento no teu nome, penso que abaixo do Equador se escreve assim, certo?
É interessante partilhar estas experiências internacionais sobre os jovens de hoje em dia. Realmente, por aqui também vamos tendo este problema tão típico das sociedades consumistas e, porque não dizê-lo, vazias. Valorizar o TER sobre o SER tem nos conduzido a todos a esta crise de finanças e de valores.
Sem valores e ética qualquer sociedade, por mais rica que seja, acaba num momento ou noutro, por cair. E nós com ela.
Vamos, por isso, cada um no seu lugar, fazendo a nossa parte, não é?
Apareça sempre com esse seu bom astral ;)
Abraço
Marta M a 21 de Outubro de 2009 às 21:05

Olá!
Que frase... e dita por alguém tão novo ainda...

Felicito-te mais uma vez pela tamanha sensibilidade que demonstras e, pelo facto de não desistires dos teus alunos que, muitas das vezes têm nos professores uma ultima esperança de melhoria.

Bem hajas Marta!
Caminhando... a 24 de Outubro de 2009 às 21:47

Joana:
Obrigado eu a ti pelas boas palavras que me vais dirigido .
Realmente também tive pena de escutar tamanha agressividade de alguém tão jovem. Mas pior é ver a dureza dos seus olhos e, adivinhar a negligência com que certamente fora tratado. Mesmo que nada de material lhe falte (parece o caso) ninguém lhe deu atenção ou uma atenção verdadeira ou construtiva.
E isso há de limitá-lo e condicionar-lhe o caminho. É contra isso que, na escola, vamos com maior ou menor sucesso, lutando.
Ninguém nasce com aquele olhar...
Abraço e bom domingo!
Marta M a 24 de Outubro de 2009 às 23:33

Oi Marta,

Parabéns pela benevolência com esse jovem e muito boa sorte em sua jornada.

Deixo uma mensagem que gosto muito:
“ Tudo se decide com firme determinação. Um único momento de decisão muda a vida da pessoa para sempre. Uma pessoa faz a diferença. Um único indivíduo muda a história.” – Daisaku Ikeda.

E de alguma maneira você está a mudar e mudará a história desse jovem.

Abraçs,
Simone
Simone Cardoso a 25 de Outubro de 2009 às 20:06

Vejo o mundo, somo o que me acontece, vejo os outros, as minhas circunstâncias....Escolho caminhos e vou tentando ver o "lugar" dos outros
Afinal quem penso que sou..
Outubro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
14
15
16
17

19
20
21
22
23

25
26
27
28
29
30


Aviso:
As imagens que ilustram alguns posts resultam de pesquisas no google, se existir algum direito sobre elas, por favor,faça-me saber. Obrigada.
Lugares que Também visito ;)
http://optimismoemconstrucao.blogspot.com/ http://joaodelicadosj.blogspot.com/ http://theosfera.blogs.sapo.pt/
pesquisar neste blog
 
Contador de visitas ...
E neste planeta...

contador gratis
blogs SAPO