Domingo, 09 de Agosto de 2009

Capela do Senhor da Pedra

 

Todos conhecemos a nossa velha faceta de maldizer o país, reforçada quando somos confrontados, e conhecemos decor,  todas aquelas estatísticas, as nossas e as "deles" (os outros europeus) que nos colocam quase sempre no fim das tabelas sobre os mais variados desempenhos e características...É algo que  parece nos está na matriz ou no sangue, se quiserem uma imagem mais directa.

Certo é que esse "ser em português" também nos dá características únicas, podendo considerar-se que, o nosso contributo nacional para a diversidade global, possa ser a forma como incorporamos novos ideários ou procedimentos da modernidade e continuamos a pensar como nos ensinaram..

Ou a olhar à nossa volta com a nossa expressão tão característica.

Quem não consegue detectar um português em qualquer parte do mundo só pela forma como olha nos olhos ou porque os portugueses, para o bem e para o mal, olham e reconhecem nesse olhar a existência dos outros? 

É experimentar.

Como já referi, é uma  particularidade nossa, essa capacidade de viver em dois mundos diferentes, de incorporar novo e velho, racional e místico numa mesma pessoa. Algo muito latino... mas também, muito nosso.

Basta ter coração e alma larga. E isso ainda vamos tendo...

Foram essas boas pessoas as que  encontrei ontem, em visita a Gulpilhares, a casa de amigos.

Abreviando  e indo directamente ao assunto que me levou a este post, um novo conhecido que almoçou connosco, perante a minha pergunta sobre a localização (sabia-a próxima) da Capela do Senhor da Pedra, ofereceu-se para nos levar até ela e servir de guia turístico improvisado, mas muito simpático, acrescente-se.

Logo de início foi avisando que passaríamos também por outro ex-líbris da região: a capela mortuária e Museu dos Milagres dedicados a Maria Adelaide (que me abstenho de chamar Santa dado a inconclusão dos seu processo de beatificação). Curiosos, concordámos.

A Capela, como se vê na imagem, está assente já no final da praia, em terreno periodicamente invadido pelo mar, num rochedo intemporal.  Construída no século XVII, de planta hexagonal com um altar-mor ao estilo Barroco e  Rocóco, é um lugar mágico. Apesar da arquitectura recorrente, quer para o país, quer para a época da sua edificação, o mar envolve o monumento numa mística muito forte e particular.

O mesmo pensam muitos aprendizes de bruxos/as e feiticeiras que utilizam o mesmo solo cristão  para os suas sessões nocturnas pagãs...Dualidade à portuguesa, portanto.

O cemitério de Arcozelo e famosa capela mortuária, foi a paragem seguinte.

Que dizer de um espaço por onde desfilavam dezenas de crentes, que guarda o corpo incorrupto de uma jovem e benemérita mulher falecida em 1886? Nada de muito científico para além da descrição respeitosa que se segue.

Encontrámos para além do sarcófago, que de facto impacta, salas e salas cheias de testemunhos e fotografias acompanhadas dos objectos mais improváveis naquele espaço de morada final de todos nós. Destaco como muito impressiva a galeria que contém mais de 600 vestidos de noiva que vão sendo dedicados (com nota de testemunho alfinetado) à Irmã Maria Adelaide. É preciso um sentir muito forte para uma mulher oferecer o seu vestido de noiva, penso que quer dizer muito sobre a força da crença naquela mulher e no seu poder de intervir junto ao divino.E do desespero e desamparo de quem o faz.

Nada a obstar, nada a condenar, nada a julgar, pouco a dizer e apenas respeito a mostrar...

Sem saber como digerir tudo o que via e procurando entender a fé que movia aquelas pessoas (demasiadas com lágrimas a escorrer pela cara) e que passavam por nós, fomos escutando  a  voz sensata do nosso "guia"  que, como bombeiro, já havia visto muito: "..E a gente respeita, já se sabe, cada um lá sabe. Há aflições..." e contou-nos a história de um problema de saúde já ultrapassado, mas que o fizera passar um aperto daqueles que "não se deseja a ninguém...". E de como situações estranhas tinham acontecido durante aquele período.

Pois, assentimos... Mais, porque quem nos falava assim e nos levara a todos aqueles lugares de dimensão religiosa, é  um convicto militante comunista, activista e voluntário da festa do Avante, dirigente sindical, leitor e discípulo de Marx e do seu ateísmo intransigente, mas também pela sua evidente ambivalência, um português de gema.

 

"Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.."

 Nota Importante: E somos mesmo, muitas vezes, "os maiores" - Como diz Laurinda Alves aqui:

http://www.ionline.pt/conteudo/18618-somos-os-maiores



publicado por Marta M às 19:57
Português é mesmo assim.
Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas e no desenrascanço habitual.
Luís C
Luís C a 12 de Agosto de 2009 às 19:45

Olá.
Seja sempre bem vindo a este espaço ;)
E sim, o Sérgio Godinho "apanha-nos" ou percebe-nos bem.
Tem razão.
Marta
Marta M a 13 de Agosto de 2009 às 19:21

Vejo o mundo, somo o que me acontece, vejo os outros, as minhas circunstâncias....Escolho caminhos e vou tentando ver o "lugar" dos outros
Afinal quem penso que sou..
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Aviso:
As imagens que ilustram alguns posts resultam de pesquisas no google, se existir algum direito sobre elas, por favor,faça-me saber. Obrigada.
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