Sábado, 25 de Setembro de 2010

 http://aazinhaga.blogspot.com/2009/07/escola-de-antigamente.html

Sim, é verdade.

No meio de tanta luta destes últimos dois anos, dos quais estive na linha da frente sempre que as minha convicções me impeliam, também ocorreram coisas boas aos professores.

Para além de poderem trabalhar numa área em que o material é humano e por isso vivo e sensível, no exercício da nossa profissão podemos fazer a diferença no percurso e na vida de alguém e essa satisfação e essa recompensa pessoal, não há ordenado algum que a pague ;)

Tenho aprendido muito com os meus alunos e tenho tido uma sorte incrível com a esmagadora maioria deles. Todas essas circunstâncias, tem me permitido ir cada vez mais longe nesta profissão que abracei, particularmente, com os alunos adultos...

As inovadoras e maltratadas NOVAS OPORTUNIDADES, inicialmente (e bem) dirigidas aos adultos que, por diversas razões, não puderam concluir os seus estudos na idade ideal, visavam permitir que o pudessem fazer agora, tendo sempre em linha de consideração toda a experiência de vida e profissional que foram adquirindo ao longo da vida. Idealmente, esta iniciativa responderia ao apelo da UNESCO, no sentido em que "se reconhece como formação de ADULTOS, o conjunto de processos de aprendizagens, formais ou não, e experiências de vida, graças às quais as pessoas consideradas ADULTAS (...) desenvolvem as suas capacidades, enriquecem os seus conhecimentos e melhoram as suas qualificações técnicas ou profissionais ou as reorientam de modo a satisfazer as suas próprias necessidades e as da sociedade".

O problema que agora está na ordem do dia e que desvirtua essa iniciativa de enorme mérito são os abusos, o facilitismo que procura rapidamente construir estatísticas favoráveis e o alargamento sem critério a todos aqueles que, pela idade e experiência de vida (que ao não existir, não pode ser reconhecida e validada), não se poderiam encaixar aqui.

Depois existe o outro lado desta iniciativa - aqueles alunos adultos e competentes nas suas áreas profissionais que voltam à escola, dispostos a evoluir ainda mais, e nos surpreendem com textos desta qualidade e que fazem emocionar uma turma inteira numa noite escura e chuvosa:

Exemplo de cidadania.

Foi no ano lectivo de 1967/68. Frequentava a então 3.ª classe.

A Escola, das últimas construções do Estado Novo, de piso térreo, sem condições, forma rectangular, exposta a nascente, duas salas e um telheiro na parte posterior. Espaço amplo em redor. Em frente, um caminho. Nele, junto ao muro, o mini vermelho.

Lá estávamos. Na minha sala, do lado sul, a segunda e terceira classes. À entrada, do lado esquerdo, sobre o pequeno soalho de madeira, mais alto que o restante espaço, o palco. Nele, a Senhora Professora Teresa. Ainda me recordo do nome completo, mas prefiro omiti-lo. Nos pés, as habituais pantufas vermelhas, tal como o Morris mini.

 Em frente, as velhas carteiras dispostas em quatro filas. Nelas, dois a dois, sentados, todos iguais, de branco vestidos, os alunos. Todos não, excepto um. Primeira carteira, fila mais à esquerda, logo de frente para a Senhora Professora (assim mesmo, por extenso e em maiúsculas). Lá estava ele. Sem a bata vestida. De qualquer lado que olhássemos, logo se distinguia. Acabrunhado, olhar triste. Cabelo em desalinho, cara e mãos sujas, dentes amarelos apesar dos seus oito anos. Camisola que já havia conhecido dias melhores, calças remendadas e com uma das alças, teimosa, sem botão, assim aproveitada para meter na boca. Nos pés…

sujos como a cara e as mãos. 

No recreio, imóvel, a alça e o dedo indicador direito na boca. A esquerda no bolso das calças. Olhar poisado alternadamente ora num ora noutro companheiro, com ele “comendo o seu lanche”. Para o almoço, sempre o primeiro a sair e o primeiro a chegar. Porque seria? Lá estava ele encostado à porta de entrada da Escola. 

Naquele dia, lição estudada. No palco, lá estava a Senhora Professora Teresa.

Hoje vamos falar sobre o que cada um comeu de manhã (hoje, percebo porque não terá dito pequeno-almoço). Todos, com mais ou menos desenvoltura falaram sobre o que haviam comido. Todos, excepto um. Era ele. Primeira carteira, fila mais à esquerda, logo de frente para a Senhora Professora.

Nesse dia, ao almoço, não foi o primeiro a sair.

A Senhora Professora, de pantufas vermelhas, (estou a vê-la), retirou do mini vermelho a alcofa. Atravessou o pátio, entrou e fechou a porta.

Lá estava a cozinha improvisada. No palco, tacho sobre o pequeno fogão azul, prato sobre a secretária. Tudo como habitualmente. Tudo não, havia mais um prato também sobre um pano branco. Lá estava ele, rabo da colher na boca, olhar fixo na Professora Teresa.

No dia seguinte, logo de manhã, lá estava o Morris mini vermelho. Dele saíram as pantufas vermelhas e a pasta com os livros, tudo com habitualmente. De diferente, um pequeno saco nas mãos da Professora Teresa.

Entrámos. Lá estava ele. Primeira carteira, fila mais à esquerda, logo de frente para a Senhora Professora. Tudo como antes. Tudo não, ele já não tinha os pés sujos. Cabeça voltada para baixo, admirando-os, mas não os via. Não eram vermelhos como o Mini e como as pantufas. Eram castanhos como a sua pele suja. Ele estava diferente. Porque seria? Daí para a frente, ao almoço, ele deixou ser o primeiro a sair, só o primeiro a chegar. 

Outros dias, outros sacos saíram do Mini vermelho. Dentro… não tinham remendos, algumas vermelhas como as pantufas e como o Mini, outras brancas como a bata.

Lá estava ele, fila mais à esquerda, agora já de branco vestido. A Professora a crescer por dentro e ele, por dentro e por fora.

Lá estava ele, cabelo em desalinho, cara e mãos sujas, diferente, a crescer, a crescer com a Professora M. Teresa C.C..

J.Rodrigues  

Nota pessoal: Tenho muito a agradecer à vida por estes alunos e pelo tanto que me ensinam :)



publicado por Marta M às 13:05
Marta, já reparou decerto que não faço comentários longos.
Hoje estou mesmo sem palavras... posso dizer-lhe que se publicasse um livro com as histórias que decerto viveu com os seus alunos, seria uma bela obra. Tem uma forma de escrever que nos reporta ao sítio e á história como se estivessemos lá.
Obrigada por este bocadinho.
Também lembro ainda o nome da minha Senhora Professora do ensino primário, talvez por ser um nome fora do vulgar; Juvenália.
Um beijo e bom fim de semana.
Rosinda a 25 de Setembro de 2010 às 17:22

Bom dia Rosinda:
Começo apenas hoje a responder aos comentários sempre tão agradáveis que me vão deixando, os seus especialmente.
Gosto de escrever e faço-o com a minha alma...Será o momento do dia em que sou mais "eu" ... ;)
Mas também gosto imenso de dar a conhecer as histórias de outros, particularmente as que são como esta que transcrevi e me acrescentam como pessoa e profissionalmente.
Obrigada ainda pelas boas sugestões.
Abraço e espero que este comment já a encontre mais animada :)
Marta M
Marta M a 30 de Setembro de 2010 às 13:00

E eles ti que parece que vão todos ter contigo.
Esse aluno merece destaque realmente, são raros.
beijinhos para ti e até qualquer hora
Paulo
P. César a 26 de Setembro de 2010 às 22:27

César, meu amigo:
Tenho tido sorte, não é?
E com os amigos então, nem se fala :)
Este aluno merece realmente destaque, foi muito gratificante trabalhar com ele, aprendi muito, tal como já referi...
Abraço grande e saudoso para ti!
Marta M
Marta M a 30 de Setembro de 2010 às 17:12

É difícil ser professor, mas quem gosta do que faz acaba por se sentir imensamente realizado com esta profissão.
Bem hajam os professores!
Bjns
cuidandodemim a 27 de Setembro de 2010 às 12:39

Existem momentos em que sentimos que todoo esforço faz sentido.
Absolutamente. E valem por todos os outros dias de desânimo que também povoam os meus dias, claro...
É mesmo assim.
Abraço
Marta M
Marta M a 30 de Setembro de 2010 às 17:17

Olá Marta
No meio de tanta lamúria, desinteresse, até algum caos que se vive no mundo do ensino, é reconfortante ler um post destes.
Há sempre a tendência de valorizar o que é mau e esquecemos dos bons momentos.
Este foi um bom momento, comovente ao ler a carta do aluno e comovente porque ainda vão havendo professoras como a Marta que sabe dar valor ao que de bom há quando se trabalham com crianças e se vêem crescer, crescer, crescer...

Beijos
Manu
Existe um Olhar a 27 de Setembro de 2010 às 18:07

MANU :
Os últimos 2,3 anos foram muito difíceis para os professores...Existiram momentos que se sentia o País (pelo menos os mais mal informados) contra nós.
Mas também existiram momentos altamente compensadores e que ajudaram a continuar a acreditar numa profissão que, como sabes, exige imensa vocação e motivação.
Obrigada pelas boas palavras.
E pelo incentivo :)
Abraço grande
Marta M
Marta M a 30 de Setembro de 2010 às 23:37

----Boa noite GRANDE PROFESSORA.

----Só para LHE agradecer. Os meus sentimentos voltaram a traír-me e os olhos a humedecer.

----OBRIGADO.
J. Rodrigues a 27 de Setembro de 2010 às 21:55

Sr. Joaquim:
O texto merece a divulgação e todos os elogios que se podem ler por aqui e que eu, em devido tempo, acertadamente lhe dirigi.
Eu é que agradeço o privilégio, a partilha e a consideração.
Prometa apenas que continuará o caminho de enriquecimento pessoal assim que puder...
Esse é o melhor reconhecimento do trabalho de um professor:
Promover o gosto pela aprendizagem permanente.
Força!
Abraço
Marta M
Marta M a 30 de Setembro de 2010 às 23:42

Olá Marta
Hoje sou eu a "espreitar" o seu jardim e a comover-me com o texto que publicou sobre a Senhora Professora. Também eu guardo exemplos maravilhosos dos professores que conheci na primária e na preparatória, apagadas depois pelo espírito deprimido - reaccionário - agressivo - cáustico que predominava entre os adultos que ocupavam o tal lugar no estrado no liceu.
Tenho ouvido falar muito sobre as Novas Oportunidades, nem sempre de forma lisonjeira, de qualquer forma é de louvar que uma mulher dos dias de hoje se dedique à causa como uma Senhora Professora!
Parabéns!
teoriasdacosta a 29 de Setembro de 2010 às 10:20

Olá Paula:
Um gosto ver-te por aqui também.
Quanto às Novas Oportunidades e, tal como descrevi, a grande questão é que foram desvirtuadas.
A génese era correcta.
O texto escrito pelo meu aluno foi um momento bastante emotivo e marcante,no meio de tantas e tantas aulas da noite, em que já se carrega em cima um dia inteiro de trabalho...
É para este espírito de esforço e para reconhecer o valor destes adultos que existe e se "veste" a camisola pela iniciativa das N.O.
Não para construir estatística como se vê,infelizmente.
Abraço
Marta M
Marta M a 1 de Outubro de 2010 às 22:19

Olá, Marta!
Tenho esta história arquivada num Cd. Farei um resumo para se ficar com a ideia geral.
Por ter boas notas, muitos pais vinham ter comigo, pedindo-me para dar explicações aos seus filhotes. Andava eu no antigo 6º Ano dos Liceus.
Conhecia um pai dmasiado severo que desejava que o filho tirasse um curso de Direito, mas o rapaz nunca esteve para aí virado. Em conversa no barneiro onde ía habitualmente fui indicado, presencialmente, como um bom explicador para alunos dificeis.
O homem rejubilou. Dava-me este mundo e o outro só para ensinar a «desta» do seu filho, para poder ser advogado...!
Resolvi então conbinar com ele, mas à frente de todos, que se o filho passasse nas duas Secções, Letras e Ciências, então ele, pai, dar-me ía aquilo que lhe pediria na altura.
O homem rejubilou e disse, seja quanto for e o que fôr!
O pobre do jovem entrou amedrontado no meu quintal e ficamos a conversar um pouco. Ousei sonda-lo, e vi logo que gostava de olantas e animais, queria ser Regente Agricola...!
Fica descansado que o serás, mas vamos guardar este segredo aqui entre nós.
Notas altamente melhoradas. Exames feitos e a passagem ao antigo 6º Ano dos Liceus Concretizada com belissimas notas.
De novo no Barbeiro, e à frente das testemunhas reivindiquei a seguinte forma de paragamento pelos meus serviços: Que o seu filho fosse, de imediatao para uma Escola de Regentes Agricolas.
Caíu o Carmo e a Trindade mas, este pai teve mesmo que cumprir com a sua promessa.
Resumindo: Este meu heroi, depois do curso acabado com óptimas médias, ingressou na Faculdade de Agronomia, fez o curso com uma «perna às costas», e tornou-se Investigador, em Portugal e no estrangeiro.
Uma, a duas vezes, por ano, encontramo-nos e conversmos com aquela Amizade muitissimo espeçial de quem soube ser cumplice...!
Não tive sorte; tive, isso sim, a grata alegria, do espirito de missão!
Abraço
Marcolino
Marcolino a 30 de Setembro de 2010 às 13:11

Marcolino:
Aqui está uma história para ser divulgada também.
E elogiada, certamente.
Adoro estes testemunhos de vida e de saber como alguém poder ter tanto impacto na vida de alguém.
Às vezes nem nos apercebemos do tanto que um gesto nosso, ou uma intervenção nossa, podem significar no percurso de vida de alguém.
E, por fim, concordo - foi missão.
Mas também sorte, porque nem sempre existe o reconhecimento e perdura a amizade.
No meu e no seu caso, ficou um laço bonito ;)
Bom fim de semana para si
Abraço
Marta M
Marta M a 1 de Outubro de 2010 às 22:25

Fizeram-me sentir saudades da escola. Tantos e bons momentos.
Boas festas.
batidasfotograficas a 16 de Dezembro de 2010 às 19:50

Vejo o mundo, somo o que me acontece, vejo os outros, as minhas circunstâncias....Escolho caminhos e vou tentando ver o "lugar" dos outros
Afinal quem penso que sou..
Setembro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

13
14
15
16
17

19
20
21
22
23
24

26
27
28
29


Aviso:
As imagens que ilustram alguns posts resultam de pesquisas no google, se existir algum direito sobre elas, por favor,faça-me saber. Obrigada.
Lugares que Também visito ;)
http://optimismoemconstrucao.blogspot.com/ http://joaodelicadosj.blogspot.com/ http://theosfera.blogs.sapo.pt/
pesquisar neste blog
 
Contador de visitas ...
E neste planeta...

contador gratis
blogs SAPO