Sábado, 20 de Fevereiro de 2010

Qual é o caminho a escolher?

 

 

 Quando alguns assuntos são resolvidos com tantas reservas, ficam sempre dentro de mim a "fermentar" todos os outros caminhos que se poderiam, também, ter escolhido...

No meu somatório diário, existem assuntos que considero resolvidos apenas dentro do "possível" e, portanto, ainda mexem comigo.

Explico melhor:

Lembram-se do meu aluno C.? Acredito que sim.

Pessoalmente e porque me sinto sempre responsável por todos os jovens que a vida coloca ao meu cuidado ( porque acredito que nada ocorre por acaso), levo muito tempo a desresponsabilizar-me deles.

Sei que não posso mudar tudo, ou todas as circunstâncias adversas que se cruzam no meu caminho, mas não me sinto descansada enquanto não tentar tudo o que estava ao meu alcance para alterar (ainda que apenas num ou dois aspectos) a situação encontrada.

Como sabem, o C. foi para uma escola profissional em Aveiro, já que os seus interesses eram absolutamente divergentes com a frequência das aulas ou da Escola Básica onde trabalho. É honesto acrescentar que a turma de onde ele saiu tem tido, no geral,  uma evolução muito positiva no seu comportamento e, surpreendentemente, no seu aproveitamento.

O ambiente é outro.

É impossível dissociar esta evolução qualitativa da ausência do elemento perturbador e de mau exemplo que era o C....É verdade.

Mas, e tal como se previa, uma escola profissional a km de casa, onde o aluno de 16 anos estaria num quarto alugado por sua conta e risco, era a promessa de uma caminho tentador que o C. não estava preparado para abdicar.

O seu destino ficou traçado no momento em saiu da escola e da casa da mãe para Aveiro.

Resultado pouco surpreendente: O C. falta às aulas semanas seguidas, já usa drogas (ainda que ligeiras, mas para mim dá no mesmo) bebe o que lhe apetece e desaparece dias seguidos com companhias ainda piores que ele...
Existe algum futuro para ele? Acredito que só um milagre o salva da marginalidade.

No meio pequeno onde vivia, o C. era um mau exemplo, mas era possível monitorizá-lo quer pela escola, quer pela mãe....E digamos, continha-se o estrago.

Ou não, e estando o seu caminho traçado, a sua permanência na escola e na vila só servia para desencaminhar outros que ainda tinham um futuro.

Pois esse foi o discurso que todos usamos (eu incluída) para disfarçar o facto de que estávamos mais a "transferir" o problema para outros, porque no fundo sabemos como funcionam algumas escolas profissionais e qual é perfil dos alunos que a frequentam. Principalmente longe de casa.

Na verdade, todos sabiam que o C. não iria usar de forma positiva esta oportunidade, não ia aprender uma profissão que lhe garantisse um futuro, o que ia ocorrer (e ocorreu) era que ele ia aproveitar ao máximo essa nova liberdade e espaço alargado de manobra.

A questão que permanece é essa: Deixámos cair o C. em nome da salvação de outros (escolar e outra)?

Remoo esta situação porque considero que é dever da escola incluir e não deixar ninguém para trás. Acredito nisso e sei que se nós, na escola, desistimos de um jovem, ele provavelmente não terá mais ninguém que se ocupe de dele e lhe dê os bons exemplos que são fundamentais ao seu equilíbrio e saudável crescimento. Era o caso.

Pois, mas restam os outros, que querem trabalhar, estar atentos e a quem nós, comunidade educativa, temos que garantir as melhores condições de aprendizagem, e proteger dos exemplos negativos (ficou a dúvida se o C. não introduziu  algum tipo de drogas na escola antes da sua transferência...).

Sei isso tudo, mas a dúvida permanece.

E um pequeno sentimento de culpa, também.

 



publicado por Marta M às 17:06
Olá Marta! É tão complicado agir. Tomar decisões que para uns podem ser justas para outros não...é duro. Mas zelar pela maioria em detrimento de um arrasa-nos mas se isso é o k está certo...no entanto a amargura marca-nos sempre. Creio minha amiga k fez o melhor. A escola é isso tudo k diz e ser educadora é muito difícil, porque os pais em casa não têm tempo ou descartam-se desse papel e o professor tem de ser educador, amigo, confidente, punidor e pai. Um grande beijinho para si minh amiga, creia que faz o melhor k pode se sabe. Tudo de bom para si.
Sindarin a 20 de Fevereiro de 2010 às 18:42

Olá!
Sim é isso, sabemos que a carga que é suposto a escola suportar vai para além das obrigações funcionais e técnicas que a profissão impõe, mas no fim do dia, continuamos humanos e não se consegue tratar os alunos como papéis...
Por isso não esqueço, por isso me preocupa mesmo quando sei que fiz (fizemos no Conselho de Turma) o que estava ao nosso alcance.
Espero.
Abraço e obrigada pelo comment
Marta M
Marta M a 23 de Fevereiro de 2010 às 18:49

Marta

Um dilema que nos pesa e muito. Mas muito cruamente Marta penso que se uma peça de fruta está podre devemos retirá-la de imediato antes que contamine as outras. Não sou assim tão apologista desta educação inclusiva. Acabamos por não valorizar devidamente os que querem verdadeiramente trabalhar, os que merecem a nossa atenção, acabando por lhes estar menos disponíveis, para tentar "salvar" os outros. Não pode ser. Tem de haver outra alternativa. Não uma desistência: Um outro caminho. Enquanto ele não surge não devemos negligenciar aqueles que merecem a nossa dedicação. Um domingo bom para ti, já sem muitos testes (eu acabei hoje a minha saga - Uf!)
descobrirafelicidade a 20 de Fevereiro de 2010 às 21:16

Teresa:
Compreendes demasiado bem, não é?
Também tens essa luta todos os dias, eu sei.
Entendo a tua metáfora da fruta podre que leva à ruína todas as outras....
Mas continuo a ter pena de o deixar cair. Porque sei que, talvez, com outras condições (que já não tínhamos, é certo)ele ainda podia ser salvo...
Sou uma optimista militante quando se trata da juventude.
Preciso de acreditar no seu potencial em crescimento, senão este mundo estará irremediavelmente perdido.
Mas isto sou eu a "sonhar alto" se calhar...
Abraço e partilho contigo o alívio de ter à minha frente a última pilha de testes desta temporada.
Mas hão de vir mais, eu sei ;)
Marta M a 23 de Fevereiro de 2010 às 18:55

Por muito que me custe dizê-lo, até porque há situações que nos comovem, concordo com a Teresa, temos que tirar a fruta estragada...
Pena que as alternativas para a "fruta estragada" sejam pouco eficazes.
Mas não podemos estragar as restantes.
Beijinho,
Nucha
Nucha a 23 de Fevereiro de 2010 às 22:45

Olá Marta! Assunto bem complicado este! Mas é uma realidade bem frequente, infelizmente!
Não se sinta culpada... penso que os princípios começam em casa, provavelmente o C não teve boa orientação familiar.
Mas é complicado... difícil...! Ultrapassa-me...
Tenho que agradecer a Deus por ter cinco filhos adultos que não passaram por esse problema.
Beijinhos e bom Domingo.
Rosinda a 21 de Fevereiro de 2010 às 00:55

Olá!
Provavelmente, aos seus filhos, deu-lhes a orientaçãoe o afecto que faltaram ao C..
Por saber que ele estava em desvantagem, se calhar desde que nasceu, ainda faz mais pena, não é?
Mas os outros têm que ter a oportunidade de desenvolver o seu potêncial e ele impedia-os...
Triste situação ao ter que se escolher, não é?
Deus há de orinetar, espero.
Abraço e obrigada pela visita.
Marta M
Marta M a 23 de Fevereiro de 2010 às 21:30

Amiga Marta,

Só me ocorre dizer isto: De todas as suas resoluções, jamais duvide de que, aquela por que optou, foi a mais acertada, para o referido momento!
Não existem receitas certas. Apenas existem remédios adequados, para o momento...
Abraço, já mais quentinho, deste seu seguidor,
Marcolino
Marcolino Duarte Osorio a 22 de Fevereiro de 2010 às 15:55

Marcolino:
Remédios possíveis, não é?
Desejáveis já não sei .
O certo é que eles, os que precisam de ajuda, não cessam de aparecer...
Hoje surgiu uma nova aluna, saída de uma casa disfuncional e muito problemática.
Imagine, a meio do ano...
já a estamos a integrar como é possível .
Estranho este mundo.
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Marcolino: <BR>Remédios possíveis, não é? <BR>Desejáveis já não sei . <BR>O certo é que eles, os que precisam de ajuda, não cessam de aparecer... <BR>Hoje surgiu uma nova aluna, saída de uma casa disfuncional e muito problemática. <BR>Imagine, a meio do ano... <BR>já a estamos a integrar como é possível . <BR>Estranho este mundo. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Abraçoe</A> bom fim de semana <BR>Marta M
Marta M a 26 de Fevereiro de 2010 às 22:09

Olá Amiga Marta!

Este é um sentimento perfeitamento normal de ser sentido por um coração tão bom, preocupado e amante da sua profissão.

É de facto triste ver um menino estar a percorrer caminhos que não devia e ver que está a perder tanto...
Mas por outro lado, já viste o bom que foi para os restantes meninos que com ele privaram?
Custa mas, acredita ( e sabes concerteza) que a sua saida, significou uma oportunidade para os outros de se manterem no bom caminho.

Um abraço caloroso e demorado para que te animes um bocadinho!
Caminhando... a 22 de Fevereiro de 2010 às 22:06

Joana, amiga:
Tens, têm todos, absoluta razão.
Salvámos muitos, mas o C. não...
Preço que tivémos que pagar? Provavelmente.
Esta forma de vida (inevitável!) não me conforma.
Abraço de bom fim de semana.
Marta M
Marta M a 26 de Fevereiro de 2010 às 22:13

Nem sempre conseguimos fazer tudo o que queremos pelas pessoas, mas não nos podemos culpar por isso. Temos de aceitar que há coisas que simplesmente não conseguimos fazer. Esperemos que a vida se encarregue de lhe fazer ver o caminho certo a seguir, com o mínimo de consequências possíveis.
Bjns
cuidandodemim a 24 de Fevereiro de 2010 às 18:24

Olá!
Imagino que te deves confrontar com a inevitabilidade de algumas situações quase a diário. Sabes do que falas quando dizes que só possível fazer o possível...
Entendo-te.
Mas gosto de pensar (lamentar) alto.
E...gostava de ir consertando o mundo, pelo menos algumas vezes.
Obrigada pela tua visita .
Abraço
Marta M
Marta M a 26 de Fevereiro de 2010 às 22:18

Olá Marta! Vim deixar um beijinho e agradecer o carinho da sua presença um óptimo fsemana cheio de coisas boas e muita saúde.
Sindarin a 26 de Fevereiro de 2010 às 08:51

Olá!
Que bons desejos me deixas.
Bem falta me fazem ;)
Bom fim de semana para ti também!
Marta M
Marta M a 26 de Fevereiro de 2010 às 22:19

Olá Dra. Marta.

Voltou ao assunto "C"! Ok. Soube novidades acerca dele, não foi? Pois, percebo bem. A escola pública está ultrapassada e as nossas instituições não funcionam. Quer um exemplo? Cá vai:

Há uns dias atrás, uma D Dra. A/assistente S/social foi ao meu serviço com um idoso e, pura e simplesmente deixou-o para que fosse encaminhado. Tudo bem, não me custou rigorosamente nada. Mas, eu não sou Assistente Social.

Isto serve de introdução ao tema "C". As famílias devem ser apoiadas e, porque não, ensinadas a direccionar as suas economias e os seus filhos. As famílias são o sustento da sociedade. O actual estado da sociedade é o reflexo das nossas famílias e da sociedade em que vivemos.

Sei que Lhe foi muito difícil. Já o escrevi aqui, foi o menos mau. Mas a sociedade deveria ter forma de o recuperar e integrar. Nós somos todos fruto de uma certa vivência.

Percebo e aceito quem fala em fruta podre, mas estamos a falar de pessoas, não é? Bem sei que o "C" estava a prejudicar todos os outros. Por isso eu defendo outro outros métodos. Não envolveria apenas o meio escolar. envolveria outras valências, nomeadamente o trabalho. Acredito no trabalho braçal ou intelectual como vertente par a reabilitação.

Acredite sei quanto Lhe custa, mas não se culpe. a solução exigiria outros meios par além da escola, mas é preferível gastar o dinheiro em estádios de futebol e deixar-mos as escolas sem ginásios e sem as outras valências de que falo.

Li há poucos dias que foi reduzidos o números de NEEs nas escolas. Sabe porquê? Eu sei que sabe.

Olhe, porventura, se as salas de aula tivessem dois professores, o "C" ainda estaria na Sua escola. Agora vai roubar, consumir e vender droga aos "nossos" filhos. Essa gente que anda para aí, está toda a fazer de conta. É por demais evidente que os culpados não estão nas escolas. Andam por aí.

É sempre um gosto vir aqui . Um abraço
joaquim rodrigues a 26 de Fevereiro de 2010 às 23:47

Vejo o mundo, somo o que me acontece, vejo os outros, as minhas circunstâncias....Escolho caminhos e vou tentando ver o "lugar" dos outros
Afinal quem penso que sou..
Fevereiro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12

14
15
16
17
18
19

21
22
23
24
25
27

28


Aviso:
As imagens que ilustram alguns posts resultam de pesquisas no google, se existir algum direito sobre elas, por favor,faça-me saber. Obrigada.
Lugares que Também visito ;)
http://optimismoemconstrucao.blogspot.com/ http://joaodelicadosj.blogspot.com/ http://theosfera.blogs.sapo.pt/
pesquisar neste blog
 
Contador de visitas ...
E neste planeta...

contador gratis
blogs SAPO